INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NOS CARTÓRIOS
Paula Brito - 17/09/2026
QUANDO A TECNOLOGIA NÃO PODE SUBSTITUIR O OLHAR HUMANO
Inteligência Artificial chegou aos cartórios para ficar. Ela organiza informações, automatiza tarefas repetitivas, reduz erros operacionais, agiliza pesquisas, auxilia na elaboração de documentos, otimiza fluxos internos e proporciona ganhos significativos de produtividade. É um bocado de coisas!
Sob esse aspecto, sua adoção representa um avanço importante para a atividade notarial e registral. Entretanto, como ocorre com toda inovação, exige equilíbrio.
A TECNOLOGIA E O OLHAR HUMANO
Existe um risco silencioso quando a serventia extrajudicial passa a concentrar seus investimentos apenas em tecnologia e deixa em segundo plano aquilo que sempre foi sua maior fortaleza: o relacionamento humano com seus usuários.
Quem procura um cartório raramente busca apenas um documento. Na maioria das vezes, o usuário chega trazendo dúvidas, inseguranças, expectativas ou até momentos marcantes da vida, como a compra de um imóvel, o casamento, a constituição de uma empresa, um inventário ou a autenticação de um ato que envolve patrimônio e família.
Nessas situações, nenhuma inteligência artificial consegue substituir integralmente a escuta atenta, a empatia e a capacidade de transmitir segurança jurídica.
A IA pode responder rapidamente. Mas é o colaborador preparado que compreende o contexto.
A IA pode organizar dados. Mas é o escrevente experiente que interpreta as necessidades.
A IA pode executar procedimentos. Mas é o tabelião que inspira confiança.
Quando o usuário percebe que está diante apenas de telas, robôs e respostas automáticas, pode sentir que perdeu aquilo que mais valoriza em um cartório: a certeza de que existe uma pessoa competente, de carne e osso, disponível e com responsabilidade para orientá-lo.
Outro perigo está na falsa sensação de eficiência. Reduzir o tempo de atendimento nem sempre significa aumentar a satisfação do usuário. Um atendimento extremamente rápido, porém frio, impessoal e padronizado, pode gerar insegurança, retrabalho e perda de credibilidade.
Isso não significa resistir à inovação. Pelo contrário. Os cartórios que mais se destacarão nos próximos anos serão aqueles capazes de integrar inteligência artificial e inteligência humana. A tecnologia deve assumir as tarefas repetitivas, permitindo que as pessoas dediquem mais tempo ao que realmente agrega valor: orientar, esclarecer, acolher, resolver conflitos, explicar procedimentos complexos. Em resumo: acompanhar a questão do usuário, fortalecendo a relação de confiança com a sociedade.
RELACIONO ALGUNS PONTOS FORTES DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA SERVENTIA
- Automatiza atividades repetitivas e burocráticas;
- Reduz falhas operacionais e aumenta a padronização;
- Agiliza pesquisas e localização de informações;
- Apoia a elaboração de documentos e minutas;
- Melhora o controle de processos internos;
- Disponibiliza atendimento inicial em canais digitais;
- Libera auxiliares, escrivães e equipes para atividades de maior valor agregado.
EM RELAÇÃO AOS PONTOS QUE EXIGEM EQUILÍBRIO E ATENÇÃO ESPECIAL CITAMOS ABAIXO:
- Redução do contato humano com os usuários;
- Atendimento excessivamente padronizado e pouco empático;
- Dificuldade para compreender situações excepcionais;
- Risco de enfraquecimento da confiança institucional;
- Dependência excessiva da tecnologia;
- Possibilidade de respostas inadequadas em casos complexos;
- Sensação de distanciamento entre a serventia e a comunidade;
EFICIÊNCIA DIGITAL COM EXCELÊNCIA NO ATENDIMENTO
A missão do tabelião e do registrador sempre foi oferecer segurança jurídica com credibilidade e proximidade. A Inteligência Artificial pode potencializar essa missão, mas jamais substituí-la.
No futuro, provavelmente os usuários não escolherão o cartório que possui a tecnologia mais sofisticada. Escolherão aquele que consegue unir eficiência digital com excelência no atendimento humano.
No final caro leitor, sabemos que a confiança continua sendo construída entre pessoas. E essa ainda é uma competência exclusivamente humana. Tomara que por muito tempo!
*Gilberto Cavicchioli, engenheiro, é professor em importantes escolas de negócios do Brasil. Realizou mais de 300 treinamentos e palestras em eventos sobre a gestão
Fonte: Jornal do Notário